"Vou falar-lhes de um tema (ou de um objecto, se quiserem) que analiso com muito interesse desde há largos anos. Tenho passado um tempo infinito a estudá-lo, a examiná-lo de todos os ângulos; escuto-o com atenção, tento prová-lo, cheirá-lo, toco-o. A verdade é que me delicio com todas estas manobras.
Acho que devia ser capaz de escrever um tratado sobre ele.
Por vezes os meus pensamentos dissolvem-se na noite ou não apenas na noite, mas nele... que fica imenso e secreto.
Ou então, descubro-o nos interstícios dos ruídos. E podem os ruídos ser tais que me não deixem tê-lo. É só então que começo a preocupar-me.
Mas, de forma geral, ele é para mim uma espécie - diz-se que é uma espécie não de magazine... - mas de continente, de continente riquíssimo dos mais diversos conteúdos.
É difícil falar desses conteúdos ou transmitir os seus sons tal como me soam, interessantes, com sentido, de que valeria a pena falar... se os recordasse no momento em que tenho possibilidade de os colocar no bom caminho. Que será aquele em que os falaria com a mesma feliz sonoridade com que despontaram da primeira vez, no meu silêncio.
Mas nunca os recordo tal como me surgiram. Nenhum gravador terá capacidade para fixar aquelas subtilezas, a sua brancura e a espuma, o aroma dos sons ouvidos de dentro para dentro. Refiro-me aos conteúdos do silêncio, naturalmente. Aos conteúdos do silêncio. (...)"
Zilda Cardoso
"Cerejas de celulóide"
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